sobre
A cia. víÇeras é um coletivo artístico brasiliense fundado em 2010, cuja proposta central é investigar e criar a partir da transdisciplinaridade, articulando diferentes linguagens como dança, audiovisual, artes visuais, teatro e performance. Essa abordagem surge das múltiplas formações e linhas de pesquisa de seus integrantes, gerando processos híbridos e experimentais que tensionam fronteiras entre as artes e a vida.
Com foco na pesquisa de linguagem, investigação contínua e criação autoral e colaborativa, a companhia construiu, ao longo de 15 anos, um repertório expressivo: 10 espetáculos, 7 intervenções performáticas, 1 site-specific e 9 filmes, consolidando-se como uma referência na cena do Distrito Federal. Sua relevância está no compromisso com a inovação estética e política, promovendo obras que dialogam com questões urgentes do contemporâneo, ao mesmo tempo que experimentam novas dramaturgias, coreografias e narrativas. A víÇeras se destaca por propor modos de criação horizontalizados e coletivos, em que as linguagens não apenas coexistem, mas se contaminam, criando zonas de encontro férteis para o surgimento de experiências artísticas singulares. Ao longo de sua trajetória, a companhia participou de festivais, ocupações e projetos formativos, tornando-se um espaço de invenção, fabulação e partilha, que pensa a arte como campo expandido — vivo, crítico e em constante deslocamento, consolidando-se como uma força vital no panorama da arte contemporânea brasileira ao tensionar corpo, cena e território por meio de trabalhos que não apenas investigam, mas corporificam urgências do nosso tempo. Com uma prática artística situada entre a dança, o teatro, a performance, a instalação e o audiovisual, a companhia opera como um organismo que pulsa com questões ecológicas, de identidade, gênero e contracolonialidades, provocando deslocamentos tanto estéticos quanto políticos.
depoimentos
Adriana Lodi sobre a cia. víÇeras
É sempre surpreendente o que um grupo de multiartistas é capaz de fazer quando se reúne. Assim eu entendo a Cia viÇeras, um coletivo de teatro performativo, ácido, inquieto e provocador. Tive a oportunidade de participar de parte do processo de formação de integrantes do grupo e, não raras as vezes, fiquei fascinada com a originalidade, intensidade poética e determinação desses artistas.
Gustavo Letruta sobre o espetáculo Isto também passará, Antes que eu morra
Fui muito tocando pela narrativa de você não ver quem fala, mas ao mesmo tempo ler essa personagem por meio do verbo, da escrita ao longo da peça. Me surpreendeu uma energia humorística e irônica e sarcástica. Era uma espetáculo que tinha uma melancólica e uma brincadeira com si mesmo. Me tocou muito a perspectiva audiovisual do espetáculo para além do palco teatral, a projeção num lugar mais cotidiano, mais colagem. Recriar um espaço dentro de um espaço familiar.
Alexandre Américo sobre o filme BURACO
Letras à Terra Terreiros; Covas; Acumulação; Uma cova para o futuro; Cooperação enquanto estratégia versus o Individualismo; Buraco é também sobre o coração, seus vazos, artérias, ramificações e sentimentos; Rito contemporâneo de passagem; Raiz;Rizoma; Terras vermelhas; O caminho do retorno. Esta é uma dança de terreiro, um rito de passagem contemporâneo. No Brasil, dispomos sob o arco de religiões de terreiro, todas as manifestações religiosas advindas dos povos originários e/ou de matrizes africanas. Digo, esta é uma dança de terreiro. É demarcada em um território de cor sangue e temperatura vermelha. Dança forjada em uma terra que povoa a subjetividade coletiva a nível de humanidade. A acontecimento vivo que surge para tapar o oco do ser contemporâneo em despedaço. O retorno à integridade do Ser em oposição ao desejo do Ter. De ser Corpo Buraco e não Ter um Corpo Buraco (esburacado, o corpo da falta). Escavar enquanto um paradoxo processo de Individuação em Coexistência. Como cavar nossos solos sem cooperar? Nem as raízes descem sozinhas, elas se cruzam, cambiam informações entre elas, decidem outras direções, fragmentam-se. Elas, as raízes, projetam-se como rizoma que são e assim cumprem sua função que é o próprio ato de ser/estar. Temos muito a aprender com as raízes. Temos muito a aprender ao escavar. Temos muito o que escavar. Escavar para ser. Escavar para Ser no Ato. Escavar para sangrar o coração, para morrer e viver o ciclos incansáveis de suor e barro do Corpo Buraco que Somos.
Ana Quintas sobre a víÇeras e espetáculo BOCA SECA
Posso começar esse texto tecendo uma reflexão: não há um espetáculo da cia.viÇeras que não crie uma inquietação profunda no meu peito. Não à toa, um dos espetáculos que mais marcou a minha trajetória como iluminadore foi Frangx Fritx, o espetáculo da companhia que eu tive a chance de colaborar. Com Boca Seca, eu já sabia, não seria diferente. Me lembro bem da minha sensação entrando no teatro ( e que saudades de entrar num teatro), papeis pardos no espaço. Não me lembro muito das ordens das coisas, mas me lembro de ter sorrido, sentido medo, arrepiado, emocionado. Não me lembro quanto tempo durou, mas sei que muitas das imagens que se formaram seguem durando na minha cabeça. Um corpo esquelético no meio do palco, um corpo que era papel, o papel que era corpo, o corpopapelcorpo, monstro de papel, parque de diversões pra minha imaginação espectatorial que a cada segundo criava milhões de mundos possíveis com as imagens que se apresentavam. Os espectadores ao meu redor se mexiam nas cadeiras, este definitivamente não é um espetáculo que vai te permitir sentar anestesiado em uma cadeira enquanto uma narrativa blasé se desenrola na sua frente. Esse espetáculo te convida a entrar nas suas entranhas, nos mundos que o papel cria, na fome, na sede, na falta, ausência, mas ao mesmo tempo cheia, maré, forte, grande, iluminada. Boca Seca é muitas coisas, e também ao mesmo tempo uma coisa só: boca seca. Lábios rachados, secura, silêncio, som, papel, pardo. Racham-se os papeis, secam-se as normatividades. Inunda boca de sensações, de afetos. Não há o que entender, há o que sentir, e isso pra mim é arrepio.